Quando se instala um ERP, ele costuma resolver um problema concreto: acabar com as folhas de cálculo soltas, juntar a faturação e o stock, dar à contabilidade uma fonte única de dados. Durante alguns anos tudo corre bem. Depois a empresa cresce, abre um novo canal de venda, contrata mais gente, passa a trabalhar com outros mercados, e o sistema que antes ajudava começa, discretamente, a atrapalhar.

O problema é que esta degradação raramente acontece de um dia para o outro. Em vez de uma falha dramática, surgem pequenos remendos: mais um ficheiro Excel «só para este caso», mais uma verificação manual antes de fechar o mês, mais um colaborador que «é quem sabe como se faz». Estes são os sinais a que vale a pena estar atento.

Processos manuais a aumentar

O primeiro sinal é o mais fácil de medir: quantas tarefas da sua equipa consistem em copiar dados de um lado para o outro? Se alguém exporta uma lista do ERP, a trata numa folha de cálculo e depois volta a introduzir o resultado noutro módulo, o sistema deixou de acompanhar o processo e passou a ser apenas um arquivo.

Repare também nas tarefas que só uma pessoa sabe fazer. Quando o conhecimento sobre «como contornar o ERP» vive na cabeça de um colaborador, a empresa fica exposta a erros, a férias mal planeadas e a saídas inesperadas. Cada atalho informal é uma dívida que alguém vai ter de pagar.

Um teste simples ajuda a perceber a dimensão do problema: peça a cada colaborador que anote, durante uma semana, as tarefas em que copia ou reescreve informação que já existe noutro sistema. A soma das horas costuma surpreender, e dá-lhe um argumento concreto, em euros e em tempo, para decidir o que corrigir primeiro.

Por fim, observe o tempo gasto em reconciliações. Se o fim do mês exige dias de conferências entre faturação, stock e contabilidade, é provável que os módulos não estejam bem ligados entre si, ou que o ERP já não reflita a forma como o negócio funciona.

Informação dispersa por vários ficheiros

Um ERP serve para ser a fonte única de verdade. Quando a equipa comercial mantém a sua própria folha de clientes, o armazém tem um mapa de localizações à parte e a direção financeira consulta um terceiro ficheiro para saber o que está por cobrar, existem, na prática, três versões da realidade e nenhuma é completamente fiável.

As consequências são conhecidas: preços desatualizados em propostas, encomendas prometidas sem stock, clientes contactados duas vezes pela mesma dívida. Para o cliente, tudo isto parece falta de organização, mesmo que a equipa se esforce muito.

Há ainda um efeito menos visível: quando a informação está espalhada, ninguém tem coragem de a alterar. Os ficheiros paralelos multiplicam-se, as cópias desatualizadas circulam por email e a empresa perde a capacidade de saber, em qualquer momento, quanto tem em stock, quanto lhe devem e quanto vai faturar.

Se ouve com frequência a pergunta «qual é a versão certa?», trate-a como um alerta. A solução não passa necessariamente por trocar de ERP, mas por perceber se o atual consegue integrar essas fontes ou se foi desenhado para uma empresa mais pequena do que aquela que tem hoje.

Relatórios que chegam tarde

A gestão precisa de números para decidir, e decidir tarde é quase sempre decidir pior. Se obter uma margem por cliente ou por família de produtos exige um pedido ao fornecedor do software, ou horas de trabalho de alguém com bons conhecimentos de Excel, o ERP está a falhar na sua função principal.

Outro indicador é a desconfiança nos números. Quando cada departamento apresenta valores ligeiramente diferentes para o mesmo indicador, as reuniões passam a discutir de onde vêm os dados em vez de discutir o que fazer com eles.

Repare ainda em quanto tempo demora a responder a perguntas simples de um cliente, como o estado de uma encomenda ou o saldo em aberto. Se a equipa tem de consultar vários sítios, ligar a colegas ou pedir que lhe enviem um ficheiro, o atraso sente-se do outro lado do telefone e afeta a imagem da empresa.

Um sistema ajustado ao negócio permite consultar vendas, stock, contas a receber e margens de forma atual e consistente, sem esperar pelo fecho do mês. Se isso hoje não é possível, vale a pena perceber se o problema está na configuração, na versão instalada ou no próprio produto.

Sabia que

Em muitas PME, o problema não é o ERP em si, mas o facto de ter sido configurado para a empresa de há cinco anos. Uma revisão de processos pode devolver-lhe grande parte do valor, antes de ser preciso mudar de sistema.

Sinais de alerta

  • A equipa copia dados do ERP para folhas de cálculo com regularidade
  • Cada departamento mantém a sua própria lista de clientes ou produtos
  • O fecho do mês exige dias de reconciliações manuais
  • Os relatórios de gestão só se obtêm com ajuda externa
  • Existe processo que só uma pessoa sabe executar

O que fazer a seguir

Antes de pensar em substituir o sistema, faça um diagnóstico simples. Liste os processos em que a equipa trabalha fora do ERP, estime as horas semanais que consomem e identifique os que causam mais erros ou atrasos. Muitas vezes descobre-se que uma parametrização melhor, uma atualização de versão ou um módulo adicional resolve metade dos problemas.

Convém também olhar para fora. Pergunte ao fornecedor atual qual é o plano de evolução do produto, se as obrigações legais, como a faturação certificada ou o SAF-T, continuam a ser acompanhadas, e até quando haverá suporte para a versão que utiliza. Um produto descontinuado ou sem evolução é, por si só, um motivo para planear a mudança com calma, em vez de a fazer à pressa quando surgir uma urgência.

Se, depois deste exercício, o ERP continuar a limitar o crescimento, o passo seguinte é definir requisitos com a equipa que o utiliza todos os dias e comparar alternativas com base nesses requisitos, e não apenas em demonstrações comerciais. Conte também com a ajuda de um parceiro independente, que consiga avaliar a situação sem estar preso a um único produto.